quinta-feira, 19 de junho de 2014

PM cria grupo teatral para conter os crimes na corporação


RIO – Ser ou não ser. A questão levantada na peça “A tragédia de Hamlet”, escrita pelo inglês William Shakespeare, passou a integrar o vocabulário da Polícia Militar. É que a corporação formou um grupo de teatro composto por seis PMs. Em ensaios há cerca de 20 dias, eles irão encenar a peça “O preço de uma escolha”, que deve ser apresentada a partir de julho nas unidades da PM do Rio. A iniciativa faz parte do Programa de Prevenção ao Desvio de Conduta Militar e de um pacote de medidas que têm como objetivo reduzir o número de policiais expulsos por não andarem na linha.

Os voluntários para participar da peça foram convocados pelo boletim interno da corporação, publicado em maio. E selecionados em oficinas coordenadas pelo PM Sidney Guedes, que é ator e dramaturgo.

Na peça são discutidos problemas vividos por uma família de policiais militares. Os personagens mergulham num drama, quando, por exemplo, o irmão do meio é preso por participar de um sequestro. O herói da história é o mais velho, um cadeirante ferido em serviço. O caçula é um recruta que inicia a carreira.

Eles estão em contato direto com os bandidos. Até pela natureza da missão, alguns ficam embrutecidos

Embora considere a ideia positiva, o coronel reformado Paulo César Amêndola de Souza, um dos fundadores do Batalhão de Operações Especiais, acredita que os policiais podem resistir à ideia.

- Tudo que for feito para reduzir os desvios de conduta é positivo. E, com a continuidade, a iniciativa deve ser bem assimilada. Mas os policiais podem resistir no começo. Eles estão em contato direto com os bandidos. Até pela natureza da missão, alguns ficam embrutecidos.
Segundo o boletim interno que anuncia o projeto de combate aos desvios de conduta, muitos PMs que foram excluídos conseguem retornar à corporação após análises jurídicas.

Em alguns casos, assinala o documento, o PM volta a cometer irregularidades e pode influenciar colegas. Por isso, ressalta o documento, é importante desenvolver a autocrítica.
Para o ator e diretor de teatro Silvio Guindane, a arte pode, sim, auxiliar no combate aos desvios de conduta e no aperfeiçoamento do trabalho dos policiais militares:

- Quando entrar em contato com o cidadão na rua, esse policial vai ter uma relação mais sensível, porque precisou lidar com os seus próprios sentimentos. A arte transforma.

Policiais excluídos

Entre janeiro e maio deste ano, 47 policiais militares foram excluídos da corporação por ações de desvio de conduta. Em comparação ao ano passado, houve crescimento de averiguações, sindicâncias e inquéritos que investigam PMs. De janeiro a maio de 2009, foram 149 procedimentos. No mesmo período deste ano, foram registrados 176 casos.

Para especialista, é preciso fortalecer corregedoria

Para o sociólogo Ignácio Cano, especialista em segurança pública e membro do laboratório de análise da violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), a corporação deveria priorizar um aumento nos critérios de seleção de funcionários e de fiscalização, por exemplo.
- Qualquer iniciativa é boa, mas deveria ser acompanhada pelo fortalecimento das corregedorias (que investigam PMs), melhora da remuneração e elevação dos critérios de admissão – enumera. – Em alguns casos, os policiais enxergam exemplos de colegas corruptos dentro do próprio batalhão.

Apesar de saber que só o teatro não resolve o problema, o tenente Melquisedec Nascimento, presidente da Associação dos Militares Auxiliares e Especialistas (Amae), acredita que a iniciativa pode ajudar a conscientizar os policiais.

Torço que dê certo. Prefiro pagar ingresso a pagar propina

- Se tivesse esse tipo de iniciativa antes, muitos dos policiais que hoje estão presos ou excluídos poderiam estar na corporação.
Para o ator Marcius Melhem, em cartaz com a peça “Nós na fita”, o teatro não é capaz de fazer frente aos casos de corrupção na Polícia Militar.

- Dou a maior força para que as pessoas façam teatro. Mas não sei se isso vai ajudar. Se o cara é pilantra, não é o teatro que vai tirar isso dele. O teatro não tem essa capacidade terapêutica e salvadora. Mas torço que dê certo. Prefiro pagar ingresso a pagar propina.

Fonte:Extaonline



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